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Super El Niño: previsão de que fenômeno redistribua chuvas e altere a produtividade agrícola do País

O Super El Niño, que está se consolidando na região equatorial do Oceano Pacífico, pode ser um dos maiores fatores de risco climático para a agricultura do Brasil nas safras de 2026 e 2027. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê a intensificação do fenômeno nos próximos meses, com probabilidade próxima a 100% de que seus efeitos sejam sentidos até fevereiro de 2027. O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o que altera as correntes de vento e os padrões de chuva e temperatura em escala global. Cientificamente, desvios a partir de +0,5°C em relação à média histórica (de 1991 a 2020) já indicam o estabelecimento do fenômeno.

Augusto Pereira Filho, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, explica alguns efeitos causados pelo El Niño. “Quando o fenômeno ocorre, há uma condição de descendência do ar sobre a Amazônia, o que inibe ou dificulta a formação de tempestades, particularmente nesta época do ano. Isso significa também que, dado o aumento da radiação solar, há na Amazônia uma evapotranspiração maior, essa umidade, em razão da circulação, que é o que nós chamamos de alta pressão, que leva o ar úmido da Amazônia para o Sul do Brasil e Sudeste. Nessa condição de El Niño, você tem seca em geral na Amazônia, uma diminuição da chuva lá, e aumento das chuvas aqui no Sul e Sudeste.”

 

Augusto Pereira Filho – Foto: Lattes

 

Impactos na agricultura brasileira

Fábio Marin, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP em Piracicaba, destaca que, devido aos impactos do El Niño serem diversos, a depender da região, diferentes culturas agrícolas — como soja, milho ou cana-de-açúcar — podem ser afetadas de forma diferentes.

“A distribuição [de plantações] não é por cultura, mas por região. A soja do norte do Mato Grosso deve ser afetada por uma leve queda na chuva e a soja do Rio Grande do Sul e do Paraná, que são também Estados importantes produtores, deve ser ajudada pela chuva. O Mato Grosso é muito importante, a tendência é de ter chuva abaixo da média, pelo menos na parte norte, mas vai haver produção. O Sul do Brasil vai ter uma condição muito boa de chuva e deve produzir bem nessa safra, de modo que talvez uma região compense outra e a produção brasileira seja tão boa quanto foi a última safra. A mesma coisa para o milho e para a cana, que está muito concentrada em São Paulo, quase 60% em São Paulo, a cana tende a produzir mais em 2027.”

 

Fábio Marin – Foto: LinkedIn

 

De acordo com Marin, a região Nordeste do País passa por uma situação específica, que envolve também a situação do Oceano Atlântico. “No Nordeste, uma região com bastante agricultura familiar, e isso é muito importante do ponto de vista social, a gente ainda precisa monitorar as águas do Atlântico, porque é como se o Atlântico não tivesse se manifestado ainda. A parte nordeste se alinha com o norte, mas o Nordeste também é controlado pelas temperaturas do Atlântico, então, a depender da temperatura do Atlântico, nós podemos ter uma condição de El Niño muito forte e o Nordeste sem sentir nenhum efeito, visto que o Atlântico Tropical Sul fica um pouco mais quente. Se nós temos o Atlântico Tropical Norte um pouco mais quente, aí acontece a manifestação do El Niño no Nordeste.”

“A parte irrigada do Nordeste consegue se virar bem, porque ela tem um suprimento hídrico, que é o principal efeito do El Niño, em termos de variabilidade da chuva. A minha visão é que o que a gente vai perder, eventualmente, no Centro-Oeste, que não deve ser muito, vai ser compensado pelo Sul e outras culturas também. Eu falei da cana-de-açúcar, mas a gente pode colocar o café e o trigo também, em termos de grandes culturas, com grande pressão socioeconômica no País, também devem ser mais ajudadas do que prejudicadas”, ressalta Marin.

Preparações para eventos extremos

Segundo Marin, a agricultura brasileira é capaz de lidar com eventos climáticos extremos, como o El Niño e o La Niña — quando ocorre o resfriamento das águas do Pacífico. “A agricultura brasileira tem uma boa resiliência, ela tem uma boa capacidade de lidar com os extremos, o El Niño não derruba as produções de maneira substancial, afeta regionalmente e sempre tem uma região mais beneficiada e outra região mais afetada. Ela é considerada medianamente resiliente, isso não exclui dizer que não precisamos melhorar, que temos que avançar, obviamente não é isso que eu quero dizer, mas também o que eu quero pontuar é que climaticamente ela tem uma estrutura e ela consegue resistir, especialmente a lavoura de grão. A gente tem observado aumentos na produtividade, ano a ano, recordes de produção, e essa talvez seja a prova real de que existe uma capacidade de lidar com esses fenômenos na agricultura brasileira.”

Pereira Filho reforça a importância de ações coordenadas de governos municipais, estaduais e federal em cenários de eventos climáticos complexos. “Cada município acaba sofrendo um efeito, é importante que essas informações sobre o El Niño e outros eventos, na medida que o tempo se desenvolve nessa circunstância climática, os órgãos do governo façam o trabalho de mitigação. Não tem outro caminho. Todos os países envolvidos fazem o monitoramento do tempo e do clima por várias razões. A meteorologia afeta todo mundo, todos nós. O ambiente, os seres humanos, a fauna, a flora, tudo. Esses países dedicam recursos que vão produzir um efeito de mitigação. Ou seja, dada a variabilidade climática e um dado extremo dentro dessa variabilidade, você consegue reduzir as perdas materiais e muito mais as perdas humanas”, finaliza.

Fonte: Jornal da USP

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